


As Amazonas e seu legado de liberdade
"A etimologia da palavra “amazona” é múltipla e uma das mais controversas. Pode significar “mulher-lua”, quando a origem é armênia. Costuma também ser definida como “alpha,a” - negação, e “mazós, “sem seio” (GRAVES, 2008). A arqueóloga Jeannine Davis-Kimball (1998 apud SOUZA, 2012) sugere que poderia significar: “que não tiveram seio” no sentido de “privadas do seio”, “não foram amamentadas”. Diz-se que elas cortavam o seio direito para melhor manuseio do arco e flecha. É misterioso que o manto da deusa Ártemis de Éfeso seja coberto completamente com seios.[1] Paradoxalmente, a iconografia não registra imagens de seios decepados nas Amazonas, mas, sim, um seio coberto sob a vestimenta e outro exposto, seja nas imagens de esculturas, pinturas, estátuas, desenhos em jarros, louças, paredes, templos e afins. Pode ainda significar guerreira, “há-mazan”, a vertente que concebe as Amazonas como originárias da Cítia, portanto, iranianas.
Diz-se, ainda, que “Amazõn” em jônico corresponde a “hamazan” em iraniano e significa “lutando junto”. “Ama” significa também “mãe”, nas sociedades matriarcais, seja na China, seja na África̶ que apresenta uma nova variação ̶ “Amazigh”, mas mantém o significado.[2]
Há ainda uma vertente recolhida pela pesquisadora, escritora e poeta amazonense Regina Melo, e presente na região do mar Negro (Cítia) e norte da África, na qual as Amazonas combatiam duas a duas, ligadas por um cinto de juramentos, donde significa união e, cinto. Portanto, “unidas pelo cinto” (informação verbal)[3]”. (Trecho da Tese supracitada de Maria Rejane Reinaldo).
Diz-se que teriam sido as mulheres guerreiras os primeiros humanos a domar e montar cavalos.[4] Elas reconheciam somente a descendência materna e suas armas eram construídas por elas próprias: “[...] arcos de bronze e curtos escudos em forma de meia-lua; seus elmos, roupas e cinturões eram feitos de peles de animais selvagens [...]”.[5] De metal valioso e de serventia bélica comprovada, quando eram vencidas em combates, as guerreiras sempre tinham suas armas furtadas. Até mesmo as sacerdotisas da deusa-lua na costa sudeste do mar Negro e as do Golfo de Sitre, na Líbia, todas elas andavam armadas.
Pesquisa:
Teatro, Mito, Tragédia, Amazonas, Pentesileia
“A tentativa aqui foi reunir saberes e fazeres distintos, sem dicotomias nem hegemonias, mito, ciência e arte teatral, articulando-os, no sentido de ampliar o foco sobre a personagem objeto desta tese, e compreendendo que a “arte situa-se nesse espaço - tempo de ninguém: entre os diversos mundos”, como pensou BIÃO, 2009. p. 267” (trecho da Tese Pentesileia, a Rainha das Amazonas. Travessias de uma Personagem, de autoria de Maria Rejane Reinaldo, na Universidade Federal da Bahia, no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas – UFBA/ PPGAC, defendida e aprovada no dia 1 de julho de 2015, com apresentação pública no Teatro Martin Gonçalves da UFBA.)
Além da Tese foram criados diversos Experimentos Cênicos e Seminários internacionais.
Atualmente desenvolve a montagem do espetáculo Pentesileia, Rainha das Amazonas, em parceria com Cleise Mendes na dramaturgia e Hebe Alves na direção.
Momentos de Pesquisa e Criação de Penthesilea
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2017 - Residência Pentesileia no Ceará. Com Hebe Alves e Cleise Mendes. Fortaleza CE e Salvador BA. Projeto em andamento.
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2017 – Seminário Internacional Teatro, Mito e Feminino: conexões (Ceará/ Fortaleza). Fortaleza, Juazeiro do Norte e Sobral CE. Projeto em andamento.
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2013 - Seminário Internacional Teatro, Mito, Literatura: conexões. Teatro do Centro Dragão do Mar. Fortaleza. Ceará - CE
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2012 - Penthesilea (1808), de Kleist – Seminário Internacional Teatro, Mito, Antropofagia: conexões - Teatro da Boca Rica. Fortaleza,Ceará - CE
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2012 - Penthesilea (1808), de Kleist - Teatro da Martin Gonçalves da UFBA - BA
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2012 - Pentesileia, treinamento para a batalha final de Lina Prosa - Teatro entre Árvores – IT Palermo
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2012 - Pentesileia, treinamento para a batalha final de Lina Prosa-Teatro Segesta
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2011-2015 - Doutorado em Artes Cênicas no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia – UFBA-PPGAC- Bahia BA/Salvador, Amazônia AM/Manaus, Itália/Palermo
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2011 – Penthesilea (1808), de Kleist - LEITURA MUNDIAL DE HEINRICH VON KLEIST – BRASIL; 21 de novembro de 2011, 16h as 19h, Armazém da Cultura. Fortaleza, Ceará - CE
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2010 - Pentesileia, treinamento para a batalha final de Lina Prosa – Seminário Internacional Arte e Cidades na Sociedade Contemporânea - Teatro Dragão do Mar. Fortaleza, Ceará - CE
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Penthesilea (1808), de Kleist - Theatro José de Alencar - CE - 2001
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2010 - Bolsa Funarte de Residências em Artes Cênicas 2010-Ceará CE/Fortaleza, Bahia BA/Salvador, Amazônia AM/Manaus, Roraima RO/Boa Vista, Venezuela/Santa Elena de Uairén, França/Paris, Itália/Palermo.
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2001 - Penthesilea de Kleist – Simpósio Internacional Nietzsche-Deleuze. Theatro José de Alencar. Fortaleza, Ceará - CE
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1997 – A Paixão – Theatro José de Alencar. Inauguração da Sala Sala Nadir Papi Saboya – CENA. Fortaleza, Ceará - CE
Kleist (1777-1811) e Penthesilea: corações em fúria
“Kleist reinventa o destino da rainha das Amazonas em sua Penthesilea -(1808). Kleist e Pentesileia, criador e criatura, de modo semelhante, foram nômades, espíritos desterritorializados, com suas vidas envoltas em infindáveis travessias. Corações em fúria, os dois puseram fim à própria vida: ele, o criador, trucidado pelo infortúnio da infelicidade, da vida que não lhe ofertara certezas, fama ou reconhecimento, mas tão somente desalento e dúvidas, encharcando sua alma romântica de um sofrimento atroz, aniquilador, sob a feição de um trágico torpor. Ela, a criatura Pentesileia, “esse ser de papel”[6], seguindo os preceitos da sua raça, as Amazonas, percorrendo o mundo, guerreando, ampliando fronteiras, lutando e conquistando, até se tornar cativa de si mesma, do seu extremado amor por Aquiles”. (Trecho da Tese supracitada de Maria Rejane Reinaldo)
Considerada a maior tragédia da literatura alemã, e a primeira tragédia moderna, Pentesileia insere-se na história da dramaturgia como criação singular. Mito trágico ressignificado no tempo moderno, narra o milagre do amor entre as personagens protagonistas Aquiles e Pentesileia durante a Guerra de Troia. É uma tragédia da individualidade, do conflito entre as forças sociais, externas e as forças tenebrosas da existência subjetiva, individual”. (Trecho da Tese supracitada de Maria Rejane Reinaldo).
“Pentesileia é um exemplo primoroso da dramaturgia kleistiana, marcada pelo excesso, cujas personagens em tormento abismal alcançam o grotesco, o animalesco, o divino e o mítico, a um só tempo, removendo qualquer resquício de razão.
“Kleist tem como marca o seu caráter precursor, além das suas filiações ao romantismo niilista. Entre as suas influências filosóficas e artísticas, destaque-se a presença marcante da leitura de Kant. Porém, sobre o autor de Pentesileia, Gerd enfatiza: “[...] poucas vozes discordam quando se afirma que Kleist é o maior trágico da dramaturgia alemã” (BORNHEIM, 1992, p. 94).
O desprezo de Goethe por sua obra o teria afetado profundamente. Mesmo assim, teve grande influência sobre Kleist. E, entre ambos, existiu uma relação marcada pela admiração e discórdia. Goethe chegou a dirigir a comédia A Moringa Quebrada, mas não logrou sucesso. Ele, por momentos, publicamente, discorreu palavras duras sobre a arte do poeta e dramaturgo Kleist, especialmente, sobre Pentesileia, que “acusava” de antropofágica e grotesca. Como a compor um ambiente de concorrência e discórdia intelectual, tão comum em todos os tempos ao campo cultural, Goethe [7] faz uma afirmação terrível, chocante, sobre Kleist, dezesseis anos após sua morte: “Ele sempre me inspirou horror e repulsão, como um corpo provido pela natureza de belíssimos dons, mas corroído por um mal incurável”.
Somente após cento e cinquenta anos de sua morte, Kleist teve seu merecido reconhecimento, garantiu seu lugar na literatura universal, tendo vários monumentos “erguidos com entusiástica gratidão”. As edições de sua obra se multiplicaram, acumulando uma extensa biografia, empenhada em elucidar o enigma de sua vida e as contradições de sua obra”. (Trecho da Tese supracitada de Maria Rejane Reinaldo).
“Quando as Valquírias em cavalgada ensandecida atravessavam planícies, e o bronze de suas armaduras e escudos era tocado pelo sol, explodia um brilho incandescente, uma multicolorida miragem, atordoante de tão bela: era a aurora boreal. Pentesileia, a rainha das Amazonas, igualmente nos entontece, nos amplia os sentidos, nos arremessa aos mistérios abismais. Diferentemente de outras figuras míticas femininas, como Helena, Cassandra, Medeia, Antígona, Hécuba, Ifigênia e tantas outras, Pentesileia quase foi relegada ao anonimato pelos poetas e escritores antigos, sendo desapreciada pela literatura até o alemão Bernd Heinrich Wilhelm von Kleist (1777-1811), novelista, dramaturgo, poeta e escritor “inclassificável” e gênio maldito mudar o seu destino e reservar-lhe um lugar de prestígio na dramaturgia moderna” (Trecho da Tese supracitada de Maria Rejane Reinaldo).
Pentesileia, a rainha das Amazonas, “revestida de beleza divina" -assim louvava-a o poeta Quintus de Esmirna (1991 apud SOUZA, 2012, p. 34) - é figura desprestigiada na Ilíada (composta de 24 livros, tendo sido originada do poema “A ira de Aquiles”), a despeito de sua insofismável importância e inegável presença no ciclo épico grego, especialmente na Guerra de Tróia”. (Trecho da Tese supracitada de Maria Rejane Reinaldo).
[1] Ver imagem da deusa da fertilidade da Ásia Maior, Ártemis de Éfeso, com manto coberto de seio em Brandão (200b, p. 280).
[2] Sobre as mulheres guerreiras amazonas ver também: Cascudo (2012, p. 42); Graves (2008, p. 27-39; 75-132; 138-164); Bernd (2007, p. 225-228; 235-241; 462-467); Vainfas (2001, p. 34-35); Brito (2008, p. 22-35); Melo (ANO, p.100-111; 160-199); Kury (ANO, p. 27-28; 38-40); D’Eaubonne (1977, p. 67-74); Bulfinch (2001, p. 271); Hemming (2007, p. 273-289).
[3] Palestra Ykamiabas, mito e história,de Regina Melo no Seminário Internacional Teatro, Mito, Antropofagia: conexões, LOCAL, ANO. Maio de 2012, Fortaleza (Ceará/Brasil)?
[4] Arriano: Fragmento 58; Diodoro Sículo: II. 451; Heródoto: IV.100; Apolonio de Rodes: II.987-989; Lísias, citado por Tzetzes: Sobre Licofrone 1.332. In: GRAVES, Robert. O Grande Livro dos Mitos Gregos. Tradução Fernando Klabin. São Paulo: Ediouro, 2008, p. 131-131.c-131. e (564-565).
[5] Píndaro: Odes nemelias III. 38; Servio sobre Eneida de Virgilio: I.494; Estrabão: XI.5.1. In: GRAVES, Robert. O Grande Livro dos Mitos Gregos. Tradução Fernando Klabin. São Paulo: Ediouro, 2008, p. 131.c-131.e (565).
[6]Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov, no Dicionário Enciclopédico das ciências da
linguagem, discutem a relação da personagem com seu criador. E defendem que a personagem é um “ser de papel”, só existe como linguagem; é uma questão eminentemente linguística, pois a personagem não existe “fora” das palavras (DUCROT; OSWALD; TODOROV, 1972 apud BRAIT, 1990, p. 11).
[7] Goethe (1749-1832) foi, juntamente com Schiller (1759-1805), um criador do movimento romântico alemão Sturm und Drang (tempestade e ímpeto), contra o classicismo e o iluminismo.